13 Reasons Why e o jogo da Baleia Azul – o que eles têm em comum? Eu, você, todos nós.

Ontem, li a carta deixada pela menina do Maranhão, que cometeu suicídio na semana passada. Na carta, num ato de coragem, ela defendeu sua escolha e pediu que não pensem que fez o que fez inspirada na série do Netflix. Conta que foi abusada pelo pai/padrasto por dois anos, com a indiferença da mãe. O caso e a carta foram notificados e pude ler muitos comentários e posts nas redes criticando a série, acusando-a de irresponsável, de “matar” adolescentes, e até sugerindo que a menina foi influenciável e fraca. Também apontaram que ela estivesse participando do jogo da baleia. Para mim, justificativas que desviam a centralidade do caso, discursos que têm na história um par antigo, e que ainda nos persegue: o Quinto Mandamento – Honrarás Pai e Mãe, acima de tudo, mesmo quando esses não são honrados.

Algumas perguntas: Será mesmo que a culpa é da irresponsabilidade da série ou do pai que abusou da filha por dois anos? A culpa é da Baleia Azul ou da mãe que fingiu que não viu, para não ser uma mulher sozinha? A culpa é da menina e sua fraqueza? Ou nós somos os fracos e vivemos numa bolha social que nos faz cada vez mais egoístas, egocêntricos, fingidos e mentirosos em nome de uma “ordem social”? Recomendo a leitura da carta!

Também assisti toda a série do Netflix 13 Reasons Why e achei muito boa. O que incomoda tanto na série? Ela aponta culpados. E sempre haverá culpado. Pais omissos, bullying, agressões físicas e psicológicas, abusos, o tão falado e pouco atacado machismo. Quando alguém tira a própria vida pode parecer um ato solitário, mas sempre será coletivo. Afinal, vivemos em sociedade. E nos constituímos como sujeitos a partir de tais tais relações.

Ainda, fui atrás dos desafios da Baleia Azul. E eles sugerem: a auto-mutilação, ensaios de suicídio, a reclusão social do participante, filmes e músicas deprimidas e um ato final – o suicídio. Pergunto: um jovem em plenas condições físicas e psicológicas entraria no jogo? Não sei, mas pelas informações que pude buscar, o jogo é um convite, feito justamente para aqueles que apresentam sintomas de jogadores. Também pergunto: o problema é a Baleia Azul ou tudo que faz do jovem esse jogador? Não é mais uma fuga nossa, culpar a Baleia, isto é, o sintoma por tirar a vida de quem já se encontra semi-vivo? Não foi Verissimo que disse que “embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu”?

Este texto pode parecer confuso, e é. Mas, acima de tudo, é um desabafo. E um pedido: precisamos questionar, abrir os olhos para os problemas e os separarmos dos sintomas.

Pois, mais uma vez, sinto que estamos todos errando como sociedade, focados no sintoma de nós mesmos e não nos abismos que criamos. E enquanto seguirmos tratando sintomas sem atacar a centralidade das coisas, teremos seriados falando de uma realidade que nos incomoda, teremos baleias azuis e pessoas quebradas.

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